terça-feira, 20 de março de 2012

As unhas escuras da esperança

O velocímetro marcava o número 90. Rádio ligado, vidros abertos, uma das mãos no volante e a outra segurando um cigarro. Levou-o à boca, tragou e o jogou pela janela do veículo. "So nevermind the darkness, we still can find a way. Cause nothing lasts forever, even cold november rain", o rádio cantava, baixo.

"Não, nunca poderemos achar um caminho", disse, uma mistura de raiva e melancolia. Desligou-o e o silêncio da noite invadiu o carro. A lua cheia brilhava no céu acima, projetando um fio de luz através do peito do motorista. A estrada estava vazia, sempre esteve. Diminuiu a velocidade e virou à esquerda, em uma estrada de terra em meio às árvores.

"Estou voltando para você, logo estaremos juntos de novo, meu amor", murmurou e um sorriso inundou seu rosto escuro, os olhos claros vendo não a estrada, mas o rosto e o corpo dela.

Parou o carro e desceu, dando a volta no carro, tirou uma pá do bagageiro e pôs-se a andar por entre as árvores. A lua dava sombras azuis a elas e o silêncio caía sobre o mundo.

"Eu posso sentí-la", disse Nick.

Foram dez minutos de caminhada, até que finalmente chegou à cova. Cavou e cavou e cavou. Conseguia vê-la a sua frente, uma imagem formada na sua cabeça quase tão real que achava que poderia tocá-la. A pele alva, o rosto sereno, com um cabelo negro caindo ao lado em grossos cachos. Olhos amendoados, também negros, fitavam os seus e um sorriso acolhedor vinha de seus lábios finos, os dentes perfeitos. Estendeu a mão para ele, os cabelos dançando nas suas costas, mas não havia vento.

"Já ficaremos juntos, Christabel. Mais alguns minutos. E você será minha de novo; minha, só minha", disse, cavando e cavando.

Quando sua pá encontrou uma resistência, Nick jogou-a para o lado e agachou. Com a mão, retirou a terra delicadamente, revelando o rosto branco e morto daquela que amou, vermes saindo de olhos, boca e nariz. Tocou-a com suas mãos trêmulas, enquanto lágrimas quentes cortavam seu rosto.

"Chris... tabel... tão... perfeita."

Os minutos passaram e ele ainda a admirava como se fosse a primeira vez. Terminou de retirar a terra do seu corpo e a puxou para cima. A luz encontro-a, revelando todos os detalhes que seu corpo carregara em vida. Nick tirou o vestido claro que cobria seu corpo, deixando à mostra todo o seu sexo. Levou sua mão ao seio dela, enquanto a outra acariciava seus cabelos. Não se importava com os vermes e com o cheiro de corrupção que emanava do seu corpo frio. Não, ela era dele e sempre seria. Levantou-se, retirou as calças, o sexo ereto. Penetrou-a.

"Oh, doce Christabel", sussurrou. Sentiu a carne das coxas da mulher embaixo de sua mão, enquanto mergulhava fundo no cadáver. Podia sentir o gelado e seco interior, mas, para ele, ela sempre seria quente, úmida e aconchegante por dentro. "Agora você é minha", disse, ofegante. Aumentou a velocidade. "Você pertence a mim, somente a mim."

Quando terminou, deitou-se ao lado da carne fútil que um dia teve vida. Apoiado sobre o cotovelo, mexia distraidamente nos cabelos dela.

"Christabel... desculpe por ter sido assim, eu precisava fazê-lo. Você não era dele, você era minha, sempre foi. E, agora, sempre será. Poderemos ficar juntos para sempre, não vê? Não olhe para mim desse jeito, eu te amo. Sim, sim. Eu te amo. Por que duvida? Você não entende!" Parou de acariciá-la e levantou-se. "Ninguém entende! Ninguém sabe o quão difícil foi... Para de me olhar assim!" A raiva o dominou, pulsando quente em suas veias. Fechou as mãos em punhos, as unhas cravando fundo pele das palmas. Chutou o corpo e um sonoro crack saiu de onde a costela havia quebrado. "Você é minha, você pertence a mim! Para de me olhar desse jeito!" Chutou-a mais. "Para!" E continuou chutando, até a raiva transbordar em lágrimas e ele cair sobre os joelhos. As mãos na terra, as unhas sujas de ter cavado, a cabeça baixa. "Você foi minha..."

Levantou-se e correu o mais rápido que podia. O vento gelado da noite batia em seu rosto, secando suas lágrimas. Depois de um tempo, os músculos das pernas começaram a protestar, porém ele se obrigou a continuar até alcançar o carro.

"Ela é minha", disse, dando partida e voltando pela estrada de terra, até atingir a principal. "Minha, minha..." Os olhos embaçados, as mãos sujas e trêmulas. "Minha..."

Uma luz forte, ofuscante, surgiu a sua frente de maneira repentina. Seus olhos mal a viram, suas mãos mal reagiram no volante para desviar do caminhão. Seu último pensamento foi em torno de Christabel e da eternidade que teria ao seu lado.

Afinal, ela era dele.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Tell him...

Tell him he's wrong. Tell him that even if he's right about waiting, he's right for the wrong reasons, and that makes him all the way wrong.

Cuthbert Allgood
 A Torre Negra vol. IV - Mago E Vidro, parte três, capítulo IV.