Cacos de vida
matéria pungente
da memória viva
morta no presente
Ousei coletar
partes infinitas
do antigo lar
palavras não ditas
Desmancham as telas
unem-se ao vento
apagando as velas
desse desalento
Meu mundo assim
tornou sem cor
pois eras para mim
o alívio da dor
Calei-me em canções
andei nos labirintos
dos tolos corações
esperando, famintos
a junção dos fragmentos
terça-feira, 16 de abril de 2019
domingo, 14 de abril de 2019
Cadafalso
A fortuna me prometeste
Quanto teu peito abri
E nele mergulhei
Não notei, contudo
As finas cordas douradas
Que com ternura
Envolviam-me o pescoço
Quanto teu peito abri
E nele mergulhei
Não notei, contudo
As finas cordas douradas
Que com ternura
Envolviam-me o pescoço
No alto da colina vejo
Sombras azuis de árvores
Crepitando pálidas
Com a brisa lunar
Suas folhas balançam
Fazendo carícias sutis
No vão amor que resta
Deste mundo todo em mim
Ouvindo seus sussurros
Na minha mente vem
Perguntas enviadas pelo céu
Sem respostas mundanas
Meus anseios derradeiros
Pelo chão escorregam
Observo calada a tragédia
Do inexorável desfecho
O manto de lua que cobre
Meus pensamentos assim livres
Não vê senão a superfície
Da melancólica longa trilha
De olhos fechados contemplo
Belezas que não mais vejo
O enigma reverbera ao longe
O que eu fui, eu deixei de ser
Ou o que eu deixei
É o que eu ainda sou?
Sombras azuis de árvores
Crepitando pálidas
Com a brisa lunar
Suas folhas balançam
Fazendo carícias sutis
No vão amor que resta
Deste mundo todo em mim
Ouvindo seus sussurros
Na minha mente vem
Perguntas enviadas pelo céu
Sem respostas mundanas
Meus anseios derradeiros
Pelo chão escorregam
Observo calada a tragédia
Do inexorável desfecho
O manto de lua que cobre
Meus pensamentos assim livres
Não vê senão a superfície
Da melancólica longa trilha
De olhos fechados contemplo
Belezas que não mais vejo
O enigma reverbera ao longe
O que eu fui, eu deixei de ser
Ou o que eu deixei
É o que eu ainda sou?
Eu não estava pronta para partir
Eu não estava pronta para partir, mas
não podia mais ficar.
A certeza me golpeou de uma única vez,
tão rápida e inexorável como uma descarga elétrica em uma árvore solitária no
pasto. Por dias analisei a árvore queimada, me perguntando se era realmente
aquilo que acontecera. Se não havia algum engano e ela, na verdade, apodrecera
com o tempo. Tentei pensar se ela já aparentava estar morta no dia anterior,
mas não me lembro de tê-la visitado. Aliás, não me lembro de visitá-la há algum
tempo. Talvez por medo, talvez por descuido. Mas fui negligente em não checar o
seu bem-estar por muitos meses. Então, o que realmente causou sua morte?
Difícil dizer. Só sei que um dia resolvi visitar o pasto e ela já estava preta,
retorcida, quebrada.
Eu não estava pronta para te deixar
partir, mas você precisava ir.
Acredito que a sua contribuição na minha
vida estava finda. Não havia mais nada que eu pudesse aprender com você, e
vice-versa. Mas isso não significa que o relacionamento estava desgastado. Pelo
contrário, eu não poderia desejar mais a sua companhia, o seu amor, a sua
presença. Não tínhamos brigas, nos entendíamos a nível telepático. Então, por
que você teve que ir? O amor existia. Não basta? Você esteve na minha vida por
uma razão, e eu vivi por ela por cinco anos. Mas a visão da árvore deixara
claro que o ciclo tinha acabado e era hora de partir. Crescer em novos aspectos
e deixar que o próximo ciclo se iniciasse.
Eu não estava pronta para ir embora, mas
este não é mais meu lugar.
E quanto estarei pronta? A pergunta ecoa
por entre meu interior, ricocheteando em cada parte do meu corpo que ainda te
ama profundamente. Algum dia estarei pronta para verdadeiramente partir? E,
partindo, todo o meu ser vai comigo, ou vai ficar algum pedaço aqui com você? Provavelmente,
enquanto eu existir, haverá uma parte de mim que não vai voltar e vai ficar
aqui com você, te fazendo companhia para quando você precisar. Espero que cuide
bem desse meu pedacinho, do mesmo jeito que cuidou de mim enquanto eu estive do
seu lado.
Eu não estava pronta para seguir em
frente, mas eu preciso deixar o passado existir no seu próprio tempo.
Não é necessário dizer que a nossa
história vai me acompanhar para todo o sempre. Enquanto eu tiver memória, vou
lembrar das noites quentes em que a gente dormia em um colchão no chão, com um
ventilador de teto ligado. A roupa de cama era laranja. A gente se abraçava,
mesmo com muito calor, e dormia. Vou lembrar do tempo em que íamos para a
faculdade de bicicleta e de quando fazíamos os projetos juntos. E brigávamos
por conta disso. Fechando os olhos, eu vejo nitidamente você parado na frente
da minha casa, dentro do carro, me buscando para irmos aos correios juntos.
Você tinha comprado um presente de aniversário pra mim, pela internet. Demorou
a chegar e, nesse meio tempo, nós terminamos o namoro. Você estava com a perna
quebrada e eu, com o coração. Lembro da nossa conversa, quando voltamos a
namorar. Lembro, principalmente, de todos os pores-do-sol que vimos, de tantas
risadas, choros e carinhos, de tantas festas, brigas e reconciliações. Tantas
lembranças que recolhemos nesses quase seis anos juntos, mas nenhuma delas foi
registrada no diário. Sempre prometíamos que “dessa vez, vamos escrever”. Ficou
para trás, agora já não podemos mais usá-la.
Todos
os lugares que já fomos ficarão pintados eternamente na minha memória, e espero
que nunca percam a cor. Espero nunca esquecer dos nossos domingos preguiçosos
na cama, das nossas partidas de sinuca (e você sempre brigava comigo por eu ser
muito competitiva), das séries que maratonamos, das nossas brincadeiras, do
nosso canto, das nossas trilhas. Mas, agora, essas se divergem. Eu gostaria que
elas nos levassem à mesma cachoeira depois de vários passos. Mas para essa
caminhada que é a vida, a gente não carrega o mapa de onde vamos parar. Se
nossas cachoeiras forem diferentes, espero que você encontre uma abundante e
bonita cachoeira.
Eu não estava pronta para te deixar ir
embora, mas você precisou ir.
Sobre a nostalgia
Há um bom tempo, venho flertando com a
ideia de escrever sobre a nostalgia. No entanto, em todos os momentos em que me
dispus a fazê-lo, encontrei-me perdida em pensamentos e palavras. Durante esses
anos em que espero pacientemente pela inspiração, fui recolhendo impressões que
me ajudassem a tentar traduzir esse sentimento que me invade a cada manhã fria
em que abro as janelas e deixo o sol entrar. Finalmente, decidi deixar fluir
através de mim todas essas memórias e reuni-las, fragmento a fragmento, em um
único texto.
A nostalgia se apresenta para mim como
uma coleção de frames muito específicos, que me remetem a sentimentos passados
que já não fazem mais parte do meu mundo. As imagens adquirem uma
característica fria, que, se pudesse ser traduzida em uma cor, seria o azul. A
nostalgia está presente em uma miríade de objetos e situações. Ela é a
inclinação dos raios solares no mês de dezembro. É a caminhada pela natureza. É
o fechar de um livro, e é também o abrir. Ela é um bichinho de pelúcia
empoeirado, há muito esquecido no compartimento superior do armário. Ela é a
própria poeira. É uma folha de agenda antiga, na qual a única anotação é:
“dentista 15h”.
A nostalgia tem cheiro. Ela cheira à
madeira compensada, ao colchão novo. Ela cheira àquele velho perfume que eu
tanto gostava quando tinha 13 anos. Ao cheiro do meu primeiro namorado e do
último também. Ela lembra do cheiro do refogado, da comida simples. Ela cheira
à tinta de canetinhas coloridas e ao talco. Cheira à cola branca, em papéis e
recortes da escola. Ela cheira à pão de hambúrguer, à grama molhada, ao shampoo
barato. Ela tem o cheiro do pó, o cheiro de um quarto trancado, o cheiro de uma
vela acesa em cima da mesa da cozinha. Ela cheira ao cigarro fedido, ao
plástico queimado, à terra.
A nostalgia tem esse poder de
transformar as memórias vivas em pedaços desbotados de sentimento. Transforma o
passado em fotografias sépia, distantes e infinitas. Ela recolhe todos os
sentimentos e os coloca em uma caixinha intitulada “memórias vivas, ou mortas”.
Ela te pega pela mão e diz, gentilmente:
- Vamos revisitar o amor, relembrar a
dor. Vem, vamos rever essa cena, tão longe da sua casa. Ou seria essa sua
verdadeira casa? Vem, vamos abrir a caixa de memórias e respirar o cheiro do
mofo esquecido, das amizades que já foram, dos sentimentos já superados. Ou
suprimidos? Vamos abrir a porta que dá para o sótão, para onde empurrou as
mágoas, as raivas e as decorações de parede que já estavam quebradas. Vamos
abrir a janela para os jardins queimados, flores mortas e animais enterrados.
No final, a nostalgia senta com você em
um banquinho de concreto quebrado, faz você descansar a cabeça em seu colo,
enquanto passa os dedos pelos seus cabelos bagunçados. Ela toca em sua fronte e
te faz ver uma garota correndo na chuva ao sair de um estádio de futebol. Ela
te faz ver uma antiga casa, de uma amizade mais antiga do que o tempo. Ela te
mostra um pé de acerola, uma risada infantil, um grito de dor, um sangue
escorrendo, um beijo materno. Você vê a coleção de gibis, as fitas de
videogame. E quando você vira seu rosto em direção a ela, nota seu olhar vazio.
Ela sorri e mostra seus dentes amarelados. Ela te abraça.
Ela não te deixa ir.
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