quarta-feira, 27 de julho de 2011

A Torre Negra

Spoiler. Você que não leu, suma daqui.

Há mais ou menos um ano atrás, eu comecei a ler O Pistoleiro, primeiro livro da série A Torre Negra. Logo nas primeiras 50 páginas, já me apaixonei perdidamente pela história, mesmo não sabendo de nada da grandeza que estava por vir. Ao longo desse ano, fui lendo aos poucos, cada vez mais apaixonada. E então ontem terminei as 4003 páginas de história. Terminei A Torre Negra. Minha reação inicial foi chorar, mas eu não entendi muito bem porque chorei. Talvez por ter acabado, ou por saber que tudo aquilo se repitirá infinitamente, talvez. 4003 páginas de história que se repetem. Claro, pois o ka é uma roda e tudo o que faz é girar.

Vou comentar alguns pontos da história, embora sejam MUITOS, vou falar só dos mais importantes e deixar minha opinião aqui.

A SÉRIE
Indubtavelmente, este é o trabalho mais grandioso de Stephen King. Não só em extensão. Sua grandiosidade engloba todos os aspectos possíveis. Se existe uma única coisa pra ser dita a respeito da série em si, essa coisa é: não dá pra ler uma única vez. É simplesmente fascinante. A história te envolve de tal forma que é difícil você se desvincular de Roland e seu ka-tet, tanto o primeiro, composto de Cuthbert, Alain e Jamie, quanto o segundo, com Eddie, Susannah, Jake e Oi. Esse post vai ser longo, não tão longo quanto a Torre, mas falar de uma coisa tão complexa requer um pouco de extensão também. Vou comentar dos livros e dos personagens. Um pouquinho só, é claro. Como eu disse, é muita coisa para ser dita.
O PISTOLEIRO
O primeiro livro e o mais pequeno, porém parece ser aquele que contém mais história. O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás. Aprendi a ter o mínimo de raiva dessa frase, admito. Este primeiro volume nos dá a introdução ao Mundo Médio e nos faz conhecer aqueles olhos azuis do pistoleiro. Os olhos frios de Roland.
Aqui, o Mundo Médio não é descrito tanto, parece ser uma coisa embaçada até mesmo pra Stephen King, como se nem ele entendesse ainda o que seria o mundo de Roland. Só o que nos dá é um deserto, um pistoleiro, um menino morto e o homem de preto.
Roland perseguindo Walter, encontrando Jake, matando-o (Vá então! Há outros mundos além deste!). E finalmente, a confabulação entre o pistoleiro e o homem de preto. Enigmática. Você clama pra saber o que acontece em seguida.
A ESCOLHA DOS TRÊS
No segundo livro da série, Roland é deixado em uma praia, sozinho, com a necessidade de encontrar três pessoas que o Homem de Preto lhe revelou: O Prisioneiro, A Dama das Sombras e A Morte.
Começada sua busca, ele se deparada com Eddie Dean (O Prisioneiro), um viciado em heroína de Nova York dos anos 80; Odetta Holmes (A Dama das Sombras), uma ativista negra da mesma Nova York de Eddie, porém dos anos 60; e Jack Mort (A Morte), um homem com a mania peculiar de empurrar as pessoas, sendo ele, inclusive, quem empurrou Jake para a sua "primeira morte", digamos assim.
No final, somos surpreendidos pela "conclusão" inesperada que King dá para a dupla personalidade de Odetta Holmes/Detta Walker e para Jack Mort. Como é um livro de "transição" no meio de uma série, começamos a ler sabendo que ele não vai chegar a lugar nenhum, porém é com o mistério da Torre e com o suspense em torno do fato de ficarmos em dúvida se Roland conseguirá atingí-la ou não que torna este livro gostoso de ler.
AS TERRAS DEVASTADAS
Um livro com um desenvolvimento lento, devido às várias explicações necessárias para o desenvolvimento da série. Porém, o rumo que o livro toma é completamente fascinante e não foi nada do que eu esperei que viria.
As coisas começam a ficar mais emocionantes quando Roland e os dois membros do seu ka-tet, Eddie e Susannah (a "junção" de Odetta/Detta) se envolvem num ritual de evocação de um demônio para trazer Jake de volta para o Mundo Médio. E é exatamente essa parte que King remonta no penúltimo e último livros, quando Susannah serve de distração para o demônio. Já vamos chegar lá.
Jake volta e sua amizade com Roland é retomada, o que nos tira aquela impressão de "anti-herói" deixada por ele no primeiro livro.
O ka-tet fica completo com a chegada de Oi, um trapalhão que se torna amigo inseparável de Jake. Os cinco embarcam a bordo do monotrilho Blaine, que estipula condições para o ka-tet sair vivo do trem. O livro termina abruptamente, sem nos deixar pistas se Roland e os outros conseguirão escapar da morte e como conseguirão fazer isso. É até desonesto, admito. Porém é o que mais anima para podermos comprar o próximo livro. Maldito seja King.
MAGO E VIDRO
Particularmente, acredito que este seja o melhor livro da série. King remonta todo o passado de Roland de Gilead com seu antigo ka-tet, Susan Delgado, os Caçadores do Grande Caixão e a guerra entre John Farson e Gilead. Fascinante, completamente fascinante. Ié. Porém, o final deixa a desejar. Após todas as noites de história, o grupo chega no castelo de vidro e o fim chega até a ser bobo. E você sente que King poderia ter explorado muito mais toda a história por trás de Mago e Vidro.
OS LOBOS DE CALLA
Eu vejo esse quinto livro como um extenso "filler" da série. Uma história boa por trás de Calla Bryn Sturgis e os lobos que atacam de tempos em tempos, admito. Porém completamente desnecessária para o desenrolar da história de Roland. Tudo isso somado ao fato de que não se sabe como o ka-tet chegou a essa cidade (o que King explicará no livro The Wind Through the Keyhole, programado para ser lançado neste ano) deixa a leitura pesada, com muita enrolação e muita história desnecessária. Porém, é neste livro que Roland encontra o 13 preto, que leva o ka-tet para Nova York, onde encontram a rosa (uma "encarnação" da Torre naquele mundo) e tentam protegê-la da Companhia Sombra.
O final do livro volta a ser digno de um romance de Stephen King. Muita ação, muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Mia, a filha de ninguém, tomando o corpo de Susannah, que engravidou do demônio de As Terras Devastadas e fugindo para Nova York.
Este é outro "golpe baixo" de King. Após a batalha com os Lobos, que não passavam de robôs, e muito sangue derramado, o final te deixa tão instigado como em nenhum outro livro da série.
A CANÇÃO DE SUSANNAH
Pequeno e completamente diferente de Lobos de Calla. Aqui vemos um autor preocupado unicamente com o desenrolar da história principal, sem delongas e nem conversa fiada. Além de brincar com nossa percepção e sentidos, ele nos guia pela história de maneira rápida, precisa. O próprio King se apresenta como personagem neste livro e, mais do que isso, mostra-se fundamental para a "sobrevivência" da Torre.
Assim como uma canção (Listen to the Ves'-Ka Gan!), o sexto livro tem um ritmo próprio, quase como uma batida. O ka-tet separado mostra como cada personagem tem sua importância, até mesmo Oi, o que evidencia e deixa completamente claro o sentido das palavras "ka" e "tet" juntas. O conceito que King tanto lutou para explicar é definido neste livro, com sintonia entre os personagens, mesmo distantes.
Este livro é um pequeno (literalmente!) preparo para nós, leitores, do que virá no último livro da saga.
A TORRE NEGRA
Finalmente, aqui estamos. 33 anos se passaram após a primeira publicação de O Pistoleiro. E o que esperar do último livro, da conclusão? É de se dar medo, principalmente de algo vindo do King. Tantas coisas aconteceram neste último livro, não vale a pena citá-las. O ka-tet quebrado, a morte de Eddie, Susannah e Jake deixando Roland. Mordred, o filho de Roland, filho do Rei Rubro. Ka-Shume. A morte de Oi.
Tantos acontecimentos, tudo tão rápido. King remonta os laços do ka-tet e os quebra tão rápido quanto os apresentou. Pode apostar meu último dólar que o vazio que fica após a conclusão é algo que não há explicação. Não há. O final é exatamente como imaginamos e esperamos de Stephen King: ou você ama, ou você odeia. A não conclusão, a dúvida... são coisas presentes em praticamente todas as obras dele. É claro que aqui não seria diferente. O ka mexe conosco, faz com que pensemos se temos um ka-tet, um dinh. É quase que uma reflexão sobre nossa vida. Porém, é aqui que nos despedimos. Foi bom compartilhar da água e da comida de Roland, Eddie, Susannah, Jake e Oi e das histórias junto às fogueiras na noite. Encontraremo-nos na clareira no final do caminho. Longos dias e belas noites.
Ka.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Silêncio profundo, completo

Em um gesto de puro costume, Eisenhart passava lentamente os dedos em seu queixo, enquanto Penny mexia em seus longos cabelos negros, com o olhar baixo. Nenhum deles ousara dizer uma palavra até então. Eisenhart subitamente se levantou da cadeira e retirou-se da mesa de jantar. Porém não se retirou do aposento; dava voltas em torno de si mesmo, pensativo. 

- Não sei o que dizer - disse ele, por fim.

Penny não se deu ao trabalho de responder, apenas levantou a cabeça e sustentou seu olhar durante alguns segundos. Então voltou a mexer distraidamente no cabelo. Eisenhart apertou as têmporas com a ponta dos dedos e soltou um suspiro de frustração. Não sabia o que dizer, muito menos o que fazer. Se é que tinha algo para ser feito. Ele não precisava e não merecia aquilo. Não deveria acabar assim, não dessa forma. Ainda com os olhos fechados e dedos contra as têmporas, disse lentamente:

- Quando isso aconteceu? - Na verdade, ele não queria saber. Mas, dessa vez, a questão não era a vontade dele, mas sim o que ele deveria saber.

Penny levantou o olhar e fitou o irmão. Os olhos dela, de um azul profundo e frio, não passavam nenhuma imagem de dor, ou sofrimento.

- Há duas semanas - se limitou a dizer.

Eisenhart se virou para as portas do salão e disse de costas para a garota:

- Não se dê o trabalho de me procurar.

E logo deixou a casa, indo para onde Deus quisesse que ele fosse. Sua fala fora, de um tanto, inútil. Não, Penny não iria se incomodar em procurá-lo, não dessa vez. Sua frieza e determinação a deixavam muito longe de qualquer sentimento de perda. Refletiu sobre tudo o que havia se passado e, por ela, não fazia a mínima diferença. Eles já tinham passado por isso antes e mesmo a culpa não sendo de nenhum dos dois, ambos agiam como se houvessem feito errado. Não o errado em si, mas não teriam feito o certo. Não se deve culpar o lobo por trair uma ovelha. Penny ficou sentada na mesa de marfim no centro do grande salão durante alguns bons minutos, enquanto todos os outros se acomodavam em seus quartos e Eisenhart fora passar a noite fora, de novo.

Quando decidiu sair dali, não se dirigiu a seu quarto. Precisava de ar fresco. Foi à sacada no final do salão, onde contemplou a noite de forma como sempre olhou para tudo: friamente. Não via beleza em nada.

Faça-me vislumbrar qual o sentido da vida, qual a lógica em nascer e depois morrer.

Mas ela não se importava. Não quando tudo o que um dia ela teve, acabara de se perder em uma simples notícia, em um simples acontecimento. Em um dia simples. Já passara por isso, era a mesma história desde que nascera. Então, para que se importar? Penny ergueu sua mão na altura dos seios e segurou o colar que um dia fora lhe dado de presente. Apertou-o fortemente entre os dedos e fechou os olhos de maneira lenta. Respirou a noite, sentiu a brisa brincar com seus cabelos. Ouviu as folhas dançantes da floresta muito abaixo dela; um convite. Realmente, não se importava. E em seus últimos momentos, ainda não conseguia ver a beleza do paraíso a sua frente. Mesmo antes de ser engolida pela escuridão abaixo, mesmo antes de se encontrar com a terra e ser para sempre uma alma pertencente a ela, não conseguia ver o sentido na vida, nem a beleza desta.

A doce ignorância é a chave para o paraíso.

Inspirado na música Deep Silent Complete (Nightwish).

sábado, 28 de maio de 2011

Walking in a Dark Street

Foi em um noite de inverno. Eu me lembro bem. Ruas e calçadas mortas, a cidade toda em silêncio, salvo pelo uivo do vento que mexia nas folhas das árvores. Estava voltando para casa, percorrendo os incontáveis quilômetros a pé. Ia ouvindo música, desligada da atmosfera sombria que se formava ao meu redor. Eu via apenas a noite, a escuridão. Contemplava minha solitude de maneira calma e tranquila. Ouvindo, por ironia, Fear of the Dark, me concentrava apenas na combinação da voz de Bruce Dickinson com o riff de Dave Murray. A luz do poste ao meu lado piscou e, logo em seguida, apagou. Não me importei; na verdade, não tinha nem percebido a mudança brusca de luminosidade. Foi quando o segundo poste apagou que eu notei alguma alteração na "paisagem". Sorri para mim mesma, aqueles risos que damos quando não queremos admitir para nós mesmos que estamos com medo. Mas o que havia a temer? Estava tudo deserto e nem mesmo um possível ladrão estaria num fim do mundo como aquele. Voltei a me concentrar na música. 

Eu tenho um medo constante de que algo está sempre por perto.

Apertei o passo.

E a medida que você acelera o passo, você acha difícil olhar novamente, porque tem certeza que alguém está ali.

A pele da minha nuca estava começando a arrepiar. Porra, eu estava morrendo de medo. E ainda faltavam quanto? Dois quilômetros? Três? Não sei, não cheguei a percorrê-los para saber da resposta. As luzes foram apagando à medida que minha sombra ia passando por elas, como naqueles filmes em que você percorre um corredor enorme, cujas luzes vão se apagando bem atrás de você. Quando aquilo que te persegue está te alcançando. Quando você está prestes a morrer.

Talvez sua mente esteja pregando truques.

Tentei manter a calma. Desliguei a música e guardei meu celular na bolsa, com medo de ser roubada. Comecei a prestar atenção no que estava acontecendo. Uma brisa fria soprou, levemente jogando meus cabelos para frente. Foi quando senti um forte e horrível cheiro de queimado. Parecia queimado, mas era diferente. Era bem mais forte e nauseante. Estava quase correndo agora, desesperada por achar alguém naquela rua, mesmo que fosse um estuprador. O quinto poste de luz piscou e apagou. Com ele, um zumbido fraco e agudo se ergueu atrás da minha orelha direita e senti aquele cheiro de novo, tão mais forte que achei que poderia ter desmaiado bem ali. Porém, minha adrenalina não deixaria, não dessa vez. Eu corri. Enquanto ouvia meus passos altos e minha respiração ofegante, a brisa se tornou um vento e os postes começaram a apagar cada vez mais distante de mim. Cansei de correr dentro de um tempo incrivelvemente curto, mas eu não poderia parar. Havia algo atrás de mim, algo repugnante que fedia enxofre.

A cada segundo, a rua ficava cada vez mais escura. As luzes dos postes que ainda não haviam apagado iam diminuindo, até não sobrar mais luz, diferente daqueles atrás de mim que antes haviam piscado. Então tudo ficou escuro. Eu parei.

Você sente e subitamente seus olhos fixam nas sombras dançantes atrás de você.

Eu olhei para trás e tentei enxegar o rosto daquilo que me seguia. Mas não vi nada, pois não havia nada para ver. A rua estava iluminada de novo e o vento havia parado. Tentei fingir que tudo aquilo que havia acontecido era apenas minha imaginação. Apenas continue andando. E foi o que fiz: simplesmente continuei andando. 

Quando virei a esquina, vi um rapaz andando a apenas alguns metros na minha frente. Deus, que alívio! Alcancei-o rápido e cumprimentei. O moço sorriu e me perguntou o que fazia a essa hora da noite naquele lugar. Respondi que estava voltando para casa. Não lhe disse que estava com medo, mesmo que minha expressão facial pudesse dizer que eu estava apavorada.

- Meu nome é Matthews - disse, com um sorriso largo e bonito.

- Alyson - respondi timidamente.

Depois de um momento de silêncio, me perguntou para onde eu iria. Descrevi meu trajeto. Por sorte, parte dele Matthews também percorreria. Logo nos pusemos a andar. Conversamos pouco, eu não sentia a necessidade de preencher o silêncio. Só de estar ao lado de alguém já me deixou contente naquela noite. Fomos caminhando. Matthews parecia estar constrangido com o silêncio, porque tentava puxar os mais diversos assuntos. Eu ia respondendo, mas breve e quase secamente. Eu não queria conversar, só queria que ele me acompanhasse até o máximo possível para que nada me assustasse mais.  Ele percebeu isso e se calou. Andamos por mais alguns metros sem dizer nenhuma palavra. Eu quase não acreditava que um rapaz iria aparecer em um momento tão oportuno. 

Mais alguns metros e havia outro poste de luz. Nada vai acontecer agora, estou com Matthews, pensei. Passamos pelo poste. Ele piscou. Não, não, de novo não. Matthews pareceu não notar, assim como não notei o primeiro poste que havia piscado minutos atrás quando estava sozinha. Continuou piscando. Minha pele ficou fria e um arrepio subiu pelas minhas costas, terminando na nuca. Mas o poste não apagou. E eu não soube se eu me sentia aliviada ou preocupada. Quando voltei meu olhar a Matthews de novo, ele me perguntou:

- O que houve? Você está pálida - disse num tom de perceptiva preocupação.

Eu não pude esconder, estava aterrorizada. Contei a ele o que havia passado comigo. Contei como corri desesperada por achar que alguém, ou alguma coisa, estava me perseguindo e sobre como os postes piscavam. Sobre aquele cheiro de enxofre. Terminei e fiquei esperando por sua resposta àquilo. Ele riu. Um riso fino, baixo e gutural, que logo se transformou em uma risada alta. Minha expressão mal poderia ser descrita naquele momento: uma mistura de surpresa, vergonha, humilhação e raiva. Então ele não havia acreditado naquilo, huh?

- Desculpe, é simplesmente insano demais - seu tom era como se estivesse falando com um doente mental.

Contentei-me por ficar ao seu lado durante os poucos minutos do resto do trajeto. Estava calada e de cabeça baixa; ele notou claramente que eu estava com raiva. O silêncio voltou a ser constrangedor, mas eu não queria conversar sobre nada.

Em um determinado ponto, ele parou e disse baixo:

- É aqui que eu tenho que virar.

Assenti com a cabeça, sustentando seu olhar por alguns segundos. Aproximei-me e agredeci.

- Obrigada.

Eu ainda estava brava, mas ele me acompanhou até ali. Embora não tenha acreditado na minha história, esteve ali para que eu não sentisse mais medo. Então eu o abracei. E foi quando tudo acabou. De sua pele emanava, agora, um cheiro agonizante de enxofre. Eu gelei. Os postes apagaram, tudo ficou escuro, completamente escuro. Tentei procurar estrelas ou lua, mas elas simplesmente não existiam.

Medo do escuro.

O cheiro foi ficando cada vez mais forte à medida que meu desespero aumentava. Sua boca encostada em minha orelha soltou um risinho baixo e agudo. Além de enxofre, pude sentir também um cheiro de putrefação. Suas mãos, ásperas e geladas, deslizaram nas minhas costas. Gritou com uma voz gutural e apertou-me. Tudo se acendeu novamente e ele havia ido embora. Não me senti aliviada, nem assustada, porque de repente eu entedia tudo aquilo. Estou morta. Sim, eu estava morta. Então passei a simplesmente vagar pelas ruas, sem destino e sem razão. Tenho somente andado em uma rua escura.