sábado, 19 de outubro de 2019

Cabo das Tormentas

Calejados caminham meus pés
por entre o solo seco do desamparo
pisando nas raízes mortas
e nas pedras rígidas.

No escuro campo ando vulgarmente
avistando tempestades que se formam ao longe
o céu em tons de roxo se prepara para derramar
nas gramas secas as gotas de salvamento.

Mas a tormenta nunca vem
ela grita seus estrondos
arremessa suas luzes
conta o prenúncio implacável.

E então vai embora
deixa a terra árida ao relento
esquece de regas os pés, que
parados, já não conseguem andar

Abaixo meu olhar
espasmos percorrem meu corpo
soluços de lamúria se projetam em meus lábios
fecho minhas pálpebras...

nenhuma gota há para aquele solo.

domingo, 8 de setembro de 2019

tão logo se pôs a pensar
ela decidiu que nada podia a machucar
bem mais do que ela poderia lidar

e de repente, de súbito, num movimento mais leve que o ar
uniu as mãos e se pôs a rezar
ergueu os olhos para o céu estrelado das duas da manhã
e com graça, sem trapaça
levantou-se da grama
e se pôs a dançar

terça-feira, 16 de abril de 2019

Fragmentada

Cacos de vida
matéria pungente
da memória viva
morta no presente

Ousei coletar
partes infinitas
do antigo lar
palavras não ditas

Desmancham as telas
unem-se ao vento
apagando as velas
desse desalento

Meu mundo assim
tornou sem cor
pois eras para mim
o alívio da dor

Calei-me em canções
andei nos labirintos
dos tolos corações
esperando, famintos

a junção dos fragmentos

domingo, 14 de abril de 2019

Cadafalso

A fortuna me prometeste
Quanto teu peito abri
E nele mergulhei

Não notei, contudo
As finas cordas douradas
Que com ternura
Envolviam-me o pescoço
No alto da colina vejo
Sombras azuis de árvores
Crepitando pálidas
Com a brisa lunar

Suas folhas balançam
Fazendo carícias sutis
No vão amor que resta
Deste mundo todo em mim

Ouvindo seus sussurros
Na minha mente vem
Perguntas enviadas pelo céu
Sem respostas mundanas

Meus anseios derradeiros
Pelo chão escorregam
Observo calada a tragédia
Do inexorável desfecho

O manto de lua que cobre
Meus pensamentos assim livres
Não vê senão a superfície
Da melancólica longa trilha

De olhos fechados contemplo
Belezas que não mais vejo
O enigma reverbera ao longe
O que eu fui, eu deixei de ser

Ou o que eu deixei
É o que eu ainda sou?