Em um gesto de puro costume, Eisenhart passava lentamente os dedos em seu queixo, enquanto Penny mexia em seus longos cabelos negros, com o olhar baixo. Nenhum deles ousara dizer uma palavra até então. Eisenhart subitamente se levantou da cadeira e retirou-se da mesa de jantar. Porém não se retirou do aposento; dava voltas em torno de si mesmo, pensativo.
- Não sei o que dizer - disse ele, por fim.
Penny não se deu ao trabalho de responder, apenas levantou a cabeça e sustentou seu olhar durante alguns segundos. Então voltou a mexer distraidamente no cabelo. Eisenhart apertou as têmporas com a ponta dos dedos e soltou um suspiro de frustração. Não sabia o que dizer, muito menos o que fazer. Se é que tinha algo para ser feito. Ele não precisava e não merecia aquilo. Não deveria acabar assim, não dessa forma. Ainda com os olhos fechados e dedos contra as têmporas, disse lentamente:
- Quando isso aconteceu? - Na verdade, ele não queria saber. Mas, dessa vez, a questão não era a vontade dele, mas sim o que ele deveria saber.
Penny levantou o olhar e fitou o irmão. Os olhos dela, de um azul profundo e frio, não passavam nenhuma imagem de dor, ou sofrimento.
- Há duas semanas - se limitou a dizer.
Eisenhart se virou para as portas do salão e disse de costas para a garota:
- Não se dê o trabalho de me procurar.
E logo deixou a casa, indo para onde Deus quisesse que ele fosse. Sua fala fora, de um tanto, inútil. Não, Penny não iria se incomodar em procurá-lo, não dessa vez. Sua frieza e determinação a deixavam muito longe de qualquer sentimento de perda. Refletiu sobre tudo o que havia se passado e, por ela, não fazia a mínima diferença. Eles já tinham passado por isso antes e mesmo a culpa não sendo de nenhum dos dois, ambos agiam como se houvessem feito errado. Não o errado em si, mas não teriam feito o certo. Não se deve culpar o lobo por trair uma ovelha. Penny ficou sentada na mesa de marfim no centro do grande salão durante alguns bons minutos, enquanto todos os outros se acomodavam em seus quartos e Eisenhart fora passar a noite fora, de novo.
Quando decidiu sair dali, não se dirigiu a seu quarto. Precisava de ar fresco. Foi à sacada no final do salão, onde contemplou a noite de forma como sempre olhou para tudo: friamente. Não via beleza em nada.
Faça-me vislumbrar qual o sentido da vida, qual a lógica em nascer e depois morrer.
Mas ela não se importava. Não quando tudo o que um dia ela teve, acabara de se perder em uma simples notícia, em um simples acontecimento. Em um dia simples. Já passara por isso, era a mesma história desde que nascera. Então, para que se importar? Penny ergueu sua mão na altura dos seios e segurou o colar que um dia fora lhe dado de presente. Apertou-o fortemente entre os dedos e fechou os olhos de maneira lenta. Respirou a noite, sentiu a brisa brincar com seus cabelos. Ouviu as folhas dançantes da floresta muito abaixo dela; um convite. Realmente, não se importava. E em seus últimos momentos, ainda não conseguia ver a beleza do paraíso a sua frente. Mesmo antes de ser engolida pela escuridão abaixo, mesmo antes de se encontrar com a terra e ser para sempre uma alma pertencente a ela, não conseguia ver o sentido na vida, nem a beleza desta.
A doce ignorância é a chave para o paraíso.
Inspirado na música Deep Silent Complete (Nightwish).
Penny levantou o olhar e fitou o irmão. Os olhos dela, de um azul profundo e frio, não passavam nenhuma imagem de dor, ou sofrimento.
- Há duas semanas - se limitou a dizer.
Eisenhart se virou para as portas do salão e disse de costas para a garota:
- Não se dê o trabalho de me procurar.
E logo deixou a casa, indo para onde Deus quisesse que ele fosse. Sua fala fora, de um tanto, inútil. Não, Penny não iria se incomodar em procurá-lo, não dessa vez. Sua frieza e determinação a deixavam muito longe de qualquer sentimento de perda. Refletiu sobre tudo o que havia se passado e, por ela, não fazia a mínima diferença. Eles já tinham passado por isso antes e mesmo a culpa não sendo de nenhum dos dois, ambos agiam como se houvessem feito errado. Não o errado em si, mas não teriam feito o certo. Não se deve culpar o lobo por trair uma ovelha. Penny ficou sentada na mesa de marfim no centro do grande salão durante alguns bons minutos, enquanto todos os outros se acomodavam em seus quartos e Eisenhart fora passar a noite fora, de novo.
Quando decidiu sair dali, não se dirigiu a seu quarto. Precisava de ar fresco. Foi à sacada no final do salão, onde contemplou a noite de forma como sempre olhou para tudo: friamente. Não via beleza em nada.
Faça-me vislumbrar qual o sentido da vida, qual a lógica em nascer e depois morrer.
Mas ela não se importava. Não quando tudo o que um dia ela teve, acabara de se perder em uma simples notícia, em um simples acontecimento. Em um dia simples. Já passara por isso, era a mesma história desde que nascera. Então, para que se importar? Penny ergueu sua mão na altura dos seios e segurou o colar que um dia fora lhe dado de presente. Apertou-o fortemente entre os dedos e fechou os olhos de maneira lenta. Respirou a noite, sentiu a brisa brincar com seus cabelos. Ouviu as folhas dançantes da floresta muito abaixo dela; um convite. Realmente, não se importava. E em seus últimos momentos, ainda não conseguia ver a beleza do paraíso a sua frente. Mesmo antes de ser engolida pela escuridão abaixo, mesmo antes de se encontrar com a terra e ser para sempre uma alma pertencente a ela, não conseguia ver o sentido na vida, nem a beleza desta.
A doce ignorância é a chave para o paraíso.
Inspirado na música Deep Silent Complete (Nightwish).
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