domingo, 14 de abril de 2019

Sobre a nostalgia


Há um bom tempo, venho flertando com a ideia de escrever sobre a nostalgia. No entanto, em todos os momentos em que me dispus a fazê-lo, encontrei-me perdida em pensamentos e palavras. Durante esses anos em que espero pacientemente pela inspiração, fui recolhendo impressões que me ajudassem a tentar traduzir esse sentimento que me invade a cada manhã fria em que abro as janelas e deixo o sol entrar. Finalmente, decidi deixar fluir através de mim todas essas memórias e reuni-las, fragmento a fragmento, em um único texto.
A nostalgia se apresenta para mim como uma coleção de frames muito específicos, que me remetem a sentimentos passados que já não fazem mais parte do meu mundo. As imagens adquirem uma característica fria, que, se pudesse ser traduzida em uma cor, seria o azul. A nostalgia está presente em uma miríade de objetos e situações. Ela é a inclinação dos raios solares no mês de dezembro. É a caminhada pela natureza. É o fechar de um livro, e é também o abrir. Ela é um bichinho de pelúcia empoeirado, há muito esquecido no compartimento superior do armário. Ela é a própria poeira. É uma folha de agenda antiga, na qual a única anotação é: “dentista 15h”.
A nostalgia tem cheiro. Ela cheira à madeira compensada, ao colchão novo. Ela cheira àquele velho perfume que eu tanto gostava quando tinha 13 anos. Ao cheiro do meu primeiro namorado e do último também. Ela lembra do cheiro do refogado, da comida simples. Ela cheira à tinta de canetinhas coloridas e ao talco. Cheira à cola branca, em papéis e recortes da escola. Ela cheira à pão de hambúrguer, à grama molhada, ao shampoo barato. Ela tem o cheiro do pó, o cheiro de um quarto trancado, o cheiro de uma vela acesa em cima da mesa da cozinha. Ela cheira ao cigarro fedido, ao plástico queimado, à terra.
A nostalgia tem esse poder de transformar as memórias vivas em pedaços desbotados de sentimento. Transforma o passado em fotografias sépia, distantes e infinitas. Ela recolhe todos os sentimentos e os coloca em uma caixinha intitulada “memórias vivas, ou mortas”. Ela te pega pela mão e diz, gentilmente:
- Vamos revisitar o amor, relembrar a dor. Vem, vamos rever essa cena, tão longe da sua casa. Ou seria essa sua verdadeira casa? Vem, vamos abrir a caixa de memórias e respirar o cheiro do mofo esquecido, das amizades que já foram, dos sentimentos já superados. Ou suprimidos? Vamos abrir a porta que dá para o sótão, para onde empurrou as mágoas, as raivas e as decorações de parede que já estavam quebradas. Vamos abrir a janela para os jardins queimados, flores mortas e animais enterrados.
No final, a nostalgia senta com você em um banquinho de concreto quebrado, faz você descansar a cabeça em seu colo, enquanto passa os dedos pelos seus cabelos bagunçados. Ela toca em sua fronte e te faz ver uma garota correndo na chuva ao sair de um estádio de futebol. Ela te faz ver uma antiga casa, de uma amizade mais antiga do que o tempo. Ela te mostra um pé de acerola, uma risada infantil, um grito de dor, um sangue escorrendo, um beijo materno. Você vê a coleção de gibis, as fitas de videogame. E quando você vira seu rosto em direção a ela, nota seu olhar vazio. Ela sorri e mostra seus dentes amarelados. Ela te abraça.
Ela não te deixa ir.

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