Há um bom tempo, venho flertando com a
ideia de escrever sobre a nostalgia. No entanto, em todos os momentos em que me
dispus a fazê-lo, encontrei-me perdida em pensamentos e palavras. Durante esses
anos em que espero pacientemente pela inspiração, fui recolhendo impressões que
me ajudassem a tentar traduzir esse sentimento que me invade a cada manhã fria
em que abro as janelas e deixo o sol entrar. Finalmente, decidi deixar fluir
através de mim todas essas memórias e reuni-las, fragmento a fragmento, em um
único texto.
A nostalgia se apresenta para mim como
uma coleção de frames muito específicos, que me remetem a sentimentos passados
que já não fazem mais parte do meu mundo. As imagens adquirem uma
característica fria, que, se pudesse ser traduzida em uma cor, seria o azul. A
nostalgia está presente em uma miríade de objetos e situações. Ela é a
inclinação dos raios solares no mês de dezembro. É a caminhada pela natureza. É
o fechar de um livro, e é também o abrir. Ela é um bichinho de pelúcia
empoeirado, há muito esquecido no compartimento superior do armário. Ela é a
própria poeira. É uma folha de agenda antiga, na qual a única anotação é:
“dentista 15h”.
A nostalgia tem cheiro. Ela cheira à
madeira compensada, ao colchão novo. Ela cheira àquele velho perfume que eu
tanto gostava quando tinha 13 anos. Ao cheiro do meu primeiro namorado e do
último também. Ela lembra do cheiro do refogado, da comida simples. Ela cheira
à tinta de canetinhas coloridas e ao talco. Cheira à cola branca, em papéis e
recortes da escola. Ela cheira à pão de hambúrguer, à grama molhada, ao shampoo
barato. Ela tem o cheiro do pó, o cheiro de um quarto trancado, o cheiro de uma
vela acesa em cima da mesa da cozinha. Ela cheira ao cigarro fedido, ao
plástico queimado, à terra.
A nostalgia tem esse poder de
transformar as memórias vivas em pedaços desbotados de sentimento. Transforma o
passado em fotografias sépia, distantes e infinitas. Ela recolhe todos os
sentimentos e os coloca em uma caixinha intitulada “memórias vivas, ou mortas”.
Ela te pega pela mão e diz, gentilmente:
- Vamos revisitar o amor, relembrar a
dor. Vem, vamos rever essa cena, tão longe da sua casa. Ou seria essa sua
verdadeira casa? Vem, vamos abrir a caixa de memórias e respirar o cheiro do
mofo esquecido, das amizades que já foram, dos sentimentos já superados. Ou
suprimidos? Vamos abrir a porta que dá para o sótão, para onde empurrou as
mágoas, as raivas e as decorações de parede que já estavam quebradas. Vamos
abrir a janela para os jardins queimados, flores mortas e animais enterrados.
No final, a nostalgia senta com você em
um banquinho de concreto quebrado, faz você descansar a cabeça em seu colo,
enquanto passa os dedos pelos seus cabelos bagunçados. Ela toca em sua fronte e
te faz ver uma garota correndo na chuva ao sair de um estádio de futebol. Ela
te faz ver uma antiga casa, de uma amizade mais antiga do que o tempo. Ela te
mostra um pé de acerola, uma risada infantil, um grito de dor, um sangue
escorrendo, um beijo materno. Você vê a coleção de gibis, as fitas de
videogame. E quando você vira seu rosto em direção a ela, nota seu olhar vazio.
Ela sorri e mostra seus dentes amarelados. Ela te abraça.
Ela não te deixa ir.
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