Foi em um noite de inverno. Eu me lembro bem. Ruas e calçadas mortas, a cidade toda em silêncio, salvo pelo uivo do vento que mexia nas folhas das árvores. Estava voltando para casa, percorrendo os incontáveis quilômetros a pé. Ia ouvindo música, desligada da atmosfera sombria que se formava ao meu redor. Eu via apenas a noite, a escuridão. Contemplava minha solitude de maneira calma e tranquila. Ouvindo, por ironia, Fear of the Dark, me concentrava apenas na combinação da voz de Bruce Dickinson com o riff de Dave Murray. A luz do poste ao meu lado piscou e, logo em seguida, apagou. Não me importei; na verdade, não tinha nem percebido a mudança brusca de luminosidade. Foi quando o segundo poste apagou que eu notei alguma alteração na "paisagem". Sorri para mim mesma, aqueles risos que damos quando não queremos admitir para nós mesmos que estamos com medo. Mas o que havia a temer? Estava tudo deserto e nem mesmo um possível ladrão estaria num fim do mundo como aquele. Voltei a me concentrar na música.
Eu tenho um medo constante de que algo está sempre por perto.
Apertei o passo.
E a medida que você acelera o passo, você acha difícil olhar novamente, porque tem certeza que alguém está ali.
A pele da minha nuca estava começando a arrepiar. Porra, eu estava morrendo de medo. E ainda faltavam quanto? Dois quilômetros? Três? Não sei, não cheguei a percorrê-los para saber da resposta. As luzes foram apagando à medida que minha sombra ia passando por elas, como naqueles filmes em que você percorre um corredor enorme, cujas luzes vão se apagando bem atrás de você. Quando aquilo que te persegue está te alcançando. Quando você está prestes a morrer.
Talvez sua mente esteja pregando truques.
Tentei manter a calma. Desliguei a música e guardei meu celular na bolsa, com medo de ser roubada. Comecei a prestar atenção no que estava acontecendo. Uma brisa fria soprou, levemente jogando meus cabelos para frente. Foi quando senti um forte e horrível cheiro de queimado. Parecia queimado, mas era diferente. Era bem mais forte e nauseante. Estava quase correndo agora, desesperada por achar alguém naquela rua, mesmo que fosse um estuprador. O quinto poste de luz piscou e apagou. Com ele, um zumbido fraco e agudo se ergueu atrás da minha orelha direita e senti aquele cheiro de novo, tão mais forte que achei que poderia ter desmaiado bem ali. Porém, minha adrenalina não deixaria, não dessa vez. Eu corri. Enquanto ouvia meus passos altos e minha respiração ofegante, a brisa se tornou um vento e os postes começaram a apagar cada vez mais distante de mim. Cansei de correr dentro de um tempo incrivelvemente curto, mas eu não poderia parar. Havia algo atrás de mim, algo repugnante que fedia enxofre.
A cada segundo, a rua ficava cada vez mais escura. As luzes dos postes que ainda não haviam apagado iam diminuindo, até não sobrar mais luz, diferente daqueles atrás de mim que antes haviam piscado. Então tudo ficou escuro. Eu parei.
Você sente e subitamente seus olhos fixam nas sombras dançantes atrás de você.
Eu olhei para trás e tentei enxegar o rosto daquilo que me seguia. Mas não vi nada, pois não havia nada para ver. A rua estava iluminada de novo e o vento havia parado. Tentei fingir que tudo aquilo que havia acontecido era apenas minha imaginação. Apenas continue andando. E foi o que fiz: simplesmente continuei andando.
Quando virei a esquina, vi um rapaz andando a apenas alguns metros na minha frente. Deus, que alívio! Alcancei-o rápido e cumprimentei. O moço sorriu e me perguntou o que fazia a essa hora da noite naquele lugar. Respondi que estava voltando para casa. Não lhe disse que estava com medo, mesmo que minha expressão facial pudesse dizer que eu estava apavorada.
- Meu nome é Matthews - disse, com um sorriso largo e bonito.
- Alyson - respondi timidamente.
Depois de um momento de silêncio, me perguntou para onde eu iria. Descrevi meu trajeto. Por sorte, parte dele Matthews também percorreria. Logo nos pusemos a andar. Conversamos pouco, eu não sentia a necessidade de preencher o silêncio. Só de estar ao lado de alguém já me deixou contente naquela noite. Fomos caminhando. Matthews parecia estar constrangido com o silêncio, porque tentava puxar os mais diversos assuntos. Eu ia respondendo, mas breve e quase secamente. Eu não queria conversar, só queria que ele me acompanhasse até o máximo possível para que nada me assustasse mais. Ele percebeu isso e se calou. Andamos por mais alguns metros sem dizer nenhuma palavra. Eu quase não acreditava que um rapaz iria aparecer em um momento tão oportuno.
Mais alguns metros e havia outro poste de luz. Nada vai acontecer agora, estou com Matthews, pensei. Passamos pelo poste. Ele piscou. Não, não, de novo não. Matthews pareceu não notar, assim como não notei o primeiro poste que havia piscado minutos atrás quando estava sozinha. Continuou piscando. Minha pele ficou fria e um arrepio subiu pelas minhas costas, terminando na nuca. Mas o poste não apagou. E eu não soube se eu me sentia aliviada ou preocupada. Quando voltei meu olhar a Matthews de novo, ele me perguntou:
- O que houve? Você está pálida - disse num tom de perceptiva preocupação.
Eu não pude esconder, estava aterrorizada. Contei a ele o que havia passado comigo. Contei como corri desesperada por achar que alguém, ou alguma coisa, estava me perseguindo e sobre como os postes piscavam. Sobre aquele cheiro de enxofre. Terminei e fiquei esperando por sua resposta àquilo. Ele riu. Um riso fino, baixo e gutural, que logo se transformou em uma risada alta. Minha expressão mal poderia ser descrita naquele momento: uma mistura de surpresa, vergonha, humilhação e raiva. Então ele não havia acreditado naquilo, huh?
- Desculpe, é simplesmente insano demais - seu tom era como se estivesse falando com um doente mental.
Contentei-me por ficar ao seu lado durante os poucos minutos do resto do trajeto. Estava calada e de cabeça baixa; ele notou claramente que eu estava com raiva. O silêncio voltou a ser constrangedor, mas eu não queria conversar sobre nada.
Em um determinado ponto, ele parou e disse baixo:
- É aqui que eu tenho que virar.
Assenti com a cabeça, sustentando seu olhar por alguns segundos. Aproximei-me e agredeci.
- Obrigada.
Eu ainda estava brava, mas ele me acompanhou até ali. Embora não tenha acreditado na minha história, esteve ali para que eu não sentisse mais medo. Então eu o abracei. E foi quando tudo acabou. De sua pele emanava, agora, um cheiro agonizante de enxofre. Eu gelei. Os postes apagaram, tudo ficou escuro, completamente escuro. Tentei procurar estrelas ou lua, mas elas simplesmente não existiam.
Medo do escuro.
O cheiro foi ficando cada vez mais forte à medida que meu desespero aumentava. Sua boca encostada em minha orelha soltou um risinho baixo e agudo. Além de enxofre, pude sentir também um cheiro de putrefação. Suas mãos, ásperas e geladas, deslizaram nas minhas costas. Gritou com uma voz gutural e apertou-me. Tudo se acendeu novamente e ele havia ido embora. Não me senti aliviada, nem assustada, porque de repente eu entedia tudo aquilo. Estou morta. Sim, eu estava morta. Então passei a simplesmente vagar pelas ruas, sem destino e sem razão. Tenho somente andado em uma rua escura.

Vc tem futuro brilhante Tay...+ por favor, não fique me assustando no msn neh menina kkkk
ResponderExcluirFICOU OTIMOOOOOO!!!!
Tatá, vc escreve mto bem amigaa!!
ResponderExcluir